Older people and social movements in times of COVID-19 – Brazil’s National Front for the Strengthening of LTCFs (in Portuguese)

Aug 31, 2021 | All posts, Opinions and contributions

Idosos e movimento social em tempos de COVID-19 no Brasil – A Frente Nacional de Fortalecimento das ILPIs

By Fabiana C. Saddi and Peter Lloyd-Sherlock

No combate à COVID-19, distintas mobilizações e movimentos sociais têm sido originados e/ ou fortalecidos em diversas partes do mundo (Pleyers, 2020; Breno & Pleyers, 2020; Krinsky & Caldwell, 2020; Seow et al. 2021; Wan et al., 2020), e em especial no que se refere ao cuidado de grupos mais vulneráveis, como as pessoas idosas (Gallo & Wilber, 2021; Aung et al., 2021, Fernandes et al., 2021; Lim et al., 2020).  No Brasil verificou-se a criação da Frente Nacional de Fortalecimento das Instituições de Longa Permanência (FN) (Frente Nacional – ILPI , 2021), já no início da pandemia no país, em reação aos efeitos devastadores ocasionados pela COVID-19 na Europa, e quando o desempenho da resposta Brasileira a COVID-19 mostrava-se ainda incipiente e incerta, como ainda ocorre de certa forma – tendo em vista a crescente politização da pandemia, dentre outros fatores.

Em abril deste ano a FN completou um ano de existência, comemorado com um webinar nesta Plataforma (Corona Older Global Platform, 2021). O trabalho da FN tem se destacado pela participação de profissionais e lideranças nas cinco regiões do país; como: trabalhadores de linha de frente em ILPIs (administradores e cuidadores), psicólogos, fisioterapeutas, nutricionistas, médicos geriatras, e gestores públicos que atuam no cuidado ao idoso. Destaca-se também por suas coproduções com atores destes diversos segmentos, disponibilizando em seu website um amplo leque de ferramentas e documentos, desde guias de cuidados a palestras sobre higienização das mãos e nutrição do idoso, como exemplos (Frente Nacional – ILPI, 2021b & 2021c). Um dos últimos webinars organizado pela FN obteve 3.044 visualizações e 12.202 pessoas alcançadas (até 23 de julho de 2021).

Para entendermos melhor como se deu a criação e desenvolvimento deste movimento social, entrevista-se aqui a Dra. Karla Giacomin, quem esteve à frente da criação da FN, e hoje coordena o trabalho da Frente no Brasil. A doutora Karla Giacomin é médica geriatra, com larga experiência em saúde da pessoa idosa. Ela é referência técnica em Saúde da Pessoa Idosa da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte, consultora da Organização Mundial de Saúde para políticas de saúde e envelhecimento, vice-presidente do International Longevity Center – Brasil, e membro pesquisador do Núcleo de Estudos em Saúde Pública e Envelhecimento da Fiocruz Minas.

 

Fale um pouco como foi a formação da FN?

Karla Giacomin: A pandemia chegou de uma forma muito abrupta aqui, e as notícias que a gente tinha do que estava acontecendo na Europa eram muito aterrorizantes. Sabendo da realidade das instituições brasileiras, a gente temia que acontecesse aqui o que aconteceu lá. Se a pandemia chegasse aqui com a força que estava na Europa, e encontrasse as instituições no Brasil tão despreparadas – do ponto de vista do cuidado, do espaço físico, dos recursos humanos, dos recursos em geral -, nós imaginávamos que seria uma catástrofe. Foi neste contexto que houve um manifesto chamado “Grito das ILPIs”, feito pelas professoras Yeda Duarte, Marisa Accioly, e Helena Watanabe da Universidade de São Paulo, alertando para isso. A partir desse “grito” houve um convite da Comissão de Defesa dos Direitos do Idoso no Congresso Nacional para uma audiência pública. Naquele dia, em 07 de abril de 2020, estávamos no chat vários ativistas em favor da pessoa idosa, e ali resolvemos fazer um grupo do WhatsApp para conversar sobre isso. Depois falaram: “Karla, você poderia ser a coordenadora desse grupo?”. Aí nós criamos a Frente Nacional de Fortalecimento das ILPIs.

 

Fale um pouco desta característica de urgência da Frente, bem como da formação das Regionais.

Karla Giacomin: Ela foi criada como frente nacional ILPI urgente, que é o nome que eu dou pro meu WhatsApp. Era urgente porque tinha essa demanda de dar uma resposta rápida. Então a gente foi somando.  O WhatsApp comporta 252 pessoas. Em muito pouco tempo esgotaram as vagas no WhatsApp. Aí nós percebemos que precisávamos fazer grupos regionais. Então os fizemos.  Como a regional Sudeste é muito grande, foi subdividida em Sudeste 1 e Sudeste 2. A gente também foi agregando ativistas de outros movimentos que têm interesse na instituição, como o Ministério Público. Fizemos contato com várias entidades, e a FN foi crescendo. Chegaram gestores, técnicos dos mais variados, enfermeiro, assistente social, fisioterapeuta, nutricionista, psicólogo, fonoaudiólogo, dentista, educador físico, todo mundo foi se sentindo incluído. E a gente tinha uma preocupação muito grande de dar resposta, porque a gente via que o governo federal não reconhecia a instituição como um locus de cuidado especial.

 

Quais eram seus objetivos?

Karla Giacomin: Nosso primeiro objetivo era oferecer informação, porque era a única coisa que a gente podia fazer, que estava ao nosso alcance. Uma das pessoas que estava também nessa live era a Aline Salla, uma profissional de tecnologia e comunicação que mora na Itália, e passava para a gente informações da Itália, que eram as mais terríveis. Isso aumentava ainda mais a nossa responsabilidade de correr contra o tempo. Para você ter ideia, quando a FN foi criada, o Brasil tinha 822 óbitos de COVID, nós estamos falando agora de 536.000 óbitos. A gente tem certeza de que a nossa atuação, de alguma forma, ajudou a interceptar essa catástrofe. Porque a gente fechou algumas questões: que tinha que interromper as visitas, e tinha que orientar as pessoas com relação ao contágio. Aí nós fizemos o primeiro relatório consolidado.

 

Você entra de forma muito pioneira junto com a FN, dando informação e trazendo evidências sobre como combater a COVID. Poderia contar um pouco deste processo?

Karla Giacomin: O primeiro relatório consolidado ficou pronto em 3 semanas, com gente participando do Brasil inteiro e se ajudando. Eu fiz a editoração desse relatório, que chegou aos ouvidos do professor Alexandre Kalache, que é membro do Conselho Consultivo das Cidades e Comunidades Amigas do Idoso da OMS. A gente conseguiu fazer uma tradução desse relatório por intermédio da Rede Longevidade aqui de Belo Horizonte. Esta tradução foi para a Organização Mundial de Saúde. Isso nos permitiu ter acesso ao Fórum Econômico Mundial, onde nós fomos apresentar como uma experiência exitosa de enfrentamento da COVID-19. A coisa foi tomando um rumo, uma abrangência que estava completamente fora do nosso controle.  Não era essa a ideia original. A ideia original era passar informação. Então, só para você ter noção, por exemplo, as vacinas no Brasil começam em fevereiro. Em janeiro a FN já estava fazendo live, orientando como que seria a vacinação, quem que poderia ser vacinado, porque que era importante vacinar. Porque se a gente tivesse que esperar o governo federal, estaria esperando até agora.

 

Como as ILPIs e gestores recebem as informações, neste processo pioneiro na geração de informações para combater a COVID-19? Já consegue ver qual foi o impacto produzido por estas ações?

Karla Giacomin: A FN foi pioneira na sua forma de atuar, no seu acesso às pessoas. As ILPIs se sentiram muito amparadas, porque quando acontecia surto, eles ligavam pra gente. Ligavam para mim e para Natália Horta, professora da PUCMinas, de noite. Diziam:  – “Olha descobri que tem uma pessoa com febre, como é que eu faço?”. A gente também verificou que existiam instituições que ainda não eram conhecidas. A gente foi fazendo manuais dirigidos às demandas que apareciam, e esta foi uma outra resposta direcionada. Então apareciam questões assim: – “Como é que eu faço para cuidar da nutrição?” E a gente trabalhava a nutrição, fazia um manual ou uma live específica sobre a nutrição. “Como é que eu faço para fazer higiene bucal?”, e a gente fazia um manual de higiene bucal. Fizemos lives com todas as regionais. Tivemos que fazer várias lives, porque não dava para pegar o Nordeste nem o Sudeste todo, como exemplo, num dia só. Hoje a gente já tem mais de 500 mil visualizações do nosso material. A gente já tem 1.400 profissionais de saúde voluntários cadastrados na FN. A gente conseguiu um índice de mortalidade nas instituições do Brasil menor do que a maioria dos países. Tudo isso a gente atribui em parte, claro, não todo, a essa capacidade de gerar informação de confiança.

 

Há outra atividade ou frutos que a Frente tem gerado que você considera importante? E o trabalho da frente junto com a universidade, você quer falar um pouco?

Karla Giacomin: A Frente de Fortalecimento dos Conselhos é uma subfrete que surgiu dentro da Frente das ILPIs. Há ainda um grupo de pesquisa de várias universidades do Brasil. Então por exemplo, tem pessoal da UFRJ, da UERJ, da UNICAMP, da UNESP de Botucatu, da UFMG, da UNIFOR, da UFPel, sem esgotar todas as faculdades. A gente conseguiu mapear as ILPIs do Brasil somando diferentes fontes de informação. Utilizamos fontes da RAIS – que é a relação anual de informações sociais do Ministério da Economia-; do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, do Banco do Brasil – de uma parte que foi apoiada pelo Banco do Brasil -, do Ministério Público – vários Ministérios Públicos nos estados colaboraram conosco. A gente chegou à conclusão de que existem mais de 7 mil ILPIs no Brasil. E esse número não era sabido até agora. A gente ainda está refinando este número. Este mapeamento vai ser muito importante para a política pública no Brasil.

 

O que a FN espera alcançar em 2021?

Karla Giacomin: Nossa proposta é continuar perseguindo uma política nacional de cuidados, pois falta uma política de cuidados no Brasil. A instituição é a ponta do iceberg, e se a pessoa não está tendo acesso à ponta do iceberg, significa que ela não está tendo acesso a nada.

 

Você enxerga a FN como um movimento mais amplo que pode se institucionalizar?

Karla Giacomin: Eu acho que a gente está caminhando para uma institucionalização. No entanto esta não era minha primeira vontade, que se resumia em continuar como esse movimento livre, democrático. Contudo é importante a gente constituir a FN de uma maneira mais jurídica, para poder ocupar outros espaços. Como movimento voluntário a gente não pode ocupar determinados espaços, como num conselho, por exemplo, para poder lutar pelas instituições e por uma política de cuidados. É um movimento que nasceu totalmente independente e agora vai se consolidando.

 

Gostaria de fazer algumas considerações finais?

Karla Giacomin: O que nos move é o desejo de transformar o cuidado nesse país, trazer essas instituições para o radar das políticas públicas, seja da saúde, seja da assistência social, porque nem na assistência social elas estão. Então eu acho que a gente precisa melhorar muito: melhorar nas normas que regulam as instituições, no financiamento público, no acesso à informação, na gestão do cuidado, na gestão do negócio. Então eu percebo que a Frente vai continuar, porque o trabalho não acabou e porque a vida de toda pessoa idosa institucionalizada importa..


REFERENCES AND WEBSITES

  1. Pleyers, Geoffrey (2020) The Pandemic is a battlefield. Social movements in the COVID-19 lockdown, Journal of Civil Society, 16:4, 295-312, DOI:10.1080/17448689.2020.1794398.
  2. Bringel, Breno; Pleyers, Geoffrey (Ed.) (2020) Alerta global. Políticas, movimientos sociales y futuros em disputa en tiempos de pandemia; 1a ed. -Ciudad Autónoma de Buenos Aires : CLACSO ; Lima : ALAS; 2020. http://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/se/20200826014541/Alerta-global.pdf
  3. Krinsky, John ; Caldwell,Hillary (2020), Las redes de los movimientos en la ciudad de Nueva York: resiliencia, reformulación y resistencia en tiempos de distanciamiento y brutalidad. In: Bringel and Pleyers (Ed.), 2020. Alerta global. Políticas, movimientos sociales y futuros em disputa en tiempos de pandemia; 1a ed. -Ciudad Autónoma de Buenos Aires : CLACSO ; Lima : ALAS; 2020. Pp.
  4. Seow, et al. (2021) #Caremongering: A community-led social movement to address health and social needs during COVID-19. PLoS ONE 16(1): e0245483. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0245483
  5. Wan, Kin-Man et al. (2020). Fighting COVID-19 in Hong Kong: The effects of community and social mobilization. World Development, Volume 134, October 2020, 105055. https://doi.org/10.1016/j.worlddev.2020.105055
  6. Gallo, H. B., Wilber, K. H. (2021), Transforming Aging Services: Area Agencies on Aging and the COVID-19 Response. Gerontologist, Volume 61, Issue 2, March 2021, Pages 152–158, https://doi.org/10.1093/geront/gnaa213
  7. Aung, Myo Nyein et al. (2021), Age-friendly environment and community-based social innovation in Japan: A mixed-method study. Gerontologist, gnab121, https://doi.org/10.1093/geront/gnab121
  8. Fernandes, Daiane de Souza et al. (2021), Performance of social movements and entities in the COVID-19 pandemic in Brazil: Older adults care in long-term care facilities. bras. geriatr. gerontol. 24 (2), https://doi.org/10.1590/1981-22562021024.210048 .
  9. Lim WS et al. (2020), COVID-19 and older people in Asia: Asian Working Group for Sarcopenia calls to actions. Geriatr Gerontol Int. 2020 Jun;20(6):547-558. doi: 10.1111/ggi.13939. PMID: 32365259; PMCID: PMC7267164.
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  11. Corona Older Global Platform (2021), Webinar: Global Platform and the Brazilian National Front for Strengthening Long-Term Care Facilities – COVID-19 and long-term care for older people in Brazil. Lessons from 2020 for 2021.April 08. Available at: https://www.youtube.com/watch?v=yl_yziGI9W0 (Accessed in 28/Aug/2021)
  12. Frente Nacional de Fortalecimento a ILPI (2021b), Documentos e Cartilhas. Available at: https://www.frentenacionalilpi.com.br/arquivos (Accessed in 28/Aug/2021).
  13. Frente Nacional de Fortalecimento a ILPI (2021c). YouTube Channel da Frente nacional – ILPI [Webinars and Videos]. https://www.youtube.com/channel/UCwg17JQ-aLiQAWhjLka4Y6A?view_as=subscriber , (Accessed in 28/Aug/2021)